Dá para criar filhos livres de preconceitos?

Já faz um tempo que li o livro A Resposta (The Help), de Kathryn Stockett, e gostei muito. Já até saiu um filme baseado nele. A história se passa no Mississipi, Estados Unidos, nos anos 60, e mostra a relação entre empregadas domésticas negras e suas patroas brancas. O racismo é tema central.

Um dos trechos que me marcou é quando Aibileen, uma das empregadas, olha para Mae, uma menina branca que ela ajuda a criar, e lamenta pelo futuro da relação delas. É que, para Aibileen, embora as crianças adorem suas babás e não façam distinção de raça, elas acabam virando adultos racistas.

Os tempos são outros mas, infelizmente, junto com bons valores e grandes ensinamentos, muito racismo e preconceitos em geral ainda são passados de pai para filho. E será que é possível ser completamente imparcial? Quando nos tornamos pais, já contamos com uma vasta bagagem adquirida ao longo dos anos. Será dá para deixar essas experiências de lado e tentar ser completamente justo?

Eu tento não passar muitos julgamentos para a Sofia, mas acho que ela acaba absorvendo muita coisa que não é legal. E se não vem de mim, acaba vindo por outros meios – seja de outras pessoas, do ambiente, da mídia.

Acho importante que se prepare os filhos para o mundo real, para que eles consigam identificar possíveis perigos. Só não concordo com aqueles pais que orientam a criança a não falar com estranhos e ponto final. A Sofia ainda não anda sozinha na rua, o que torna as coisas mais fáceis nesse sentido, mas espero poder orientá-la para que ela consiga se cuidar sem que se torne antipática ou preconceituosa.

Lembro de uma vez ter ficado apreensiva quando ela cumprimentou um rapaz que vinha em nossa direção cabisbaixo, de capuz. Sabem o que ele fez? Disse “hi” pra ela. O mesmo aconteceu quando encontramos um homem tomando cerveja de manhã no parque, onde é proibido consumir álcool.

Já vi a Sofia receber sorriso desdentado de mendigo em Porto Alegre. Também já presenciei grande empatia com muçulmanas de véu e com indianos usando turbantes.

Agora, por que eu me impressiono quando uma criança interage essas pessoas? O simples fato de eu contar essas histórias já revela que, pra mim, elas fogem de alguns padrões. Não precisaria ser assim, né?

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Escolhendo o nome do bebê

A neta de uma conhecida nossa que é indiana nasceu recentemente e quando eu perguntei qual seria o nome do bebê ela pareceu surpresa e me disse que ainda não estava decidido. Ela é hindu e me deu a mesma explicação que ouvi uma vez de uma menina do Sri Lanka que trabalhou comigo.

As duas me contaram que, dependendo da hora e do dia que a criança nasce, é escolhida uma letra do alfabeto sânscrito com o qual o nome deve começar. Eles acreditam que isso traz sorte.

Aqui no Reino Unido muita gente prefere não revelar o nome do filho antes do nascimento. Além de motivos religiosos, muitos defendem que é uma decisão pessoal, que assim se evita ficar ouvindo palpite alheio. Já conheci gente que acredita que dar nome antes de ter o bebê nos braços dá azar.

Quando eu estava grávida da Sofia reparei que muita gente ficava cheia de dedos pra me perguntar se eu sabia o sexo do bebê. Aqui não é raro achar casais que preferem esperar pela surpresa. Alguns descobrem o sexo mas não anunciam para os outros.

Ouvi muito falar que alguns hospitais britânicos não revelam o sexo do bebê durante a ecografia, mas tenho a impressão que isso é coisa do passado.

Ainda com relação aos nomes, é tradicional se dar um segundo nome à criança, como acontecia no Brasil antigamente. Quanto ao sobrenome, o mais comum é usar só o do pai. Também acontece de se usar os dois, da mãe e do pai, separados por hífen.

Leia também: Furar orelhas de bebê? e Nomes de bebês: cresce número de pais arrependidos da escolha

Furar orelha de bebê?

O fato de a Sofia usar brincos quase sempre rende assunto por aqui. Gente de países como a Índia faz como os brasileiros, mas a grande maioria das meninas não têm as orelhas furadas desde cedo.  Ontem mesmo uma vizinha olhou pra Sofia e comentou comigo: “ela já usa brincos!”

Eu já ouvi esse comentário em vários tons. Tem aqueles que simplesmente acham curioso e se interessam quando eu conto que é comum no Brasil o procedimento ser feito ainda nos hospitais. Mas muita gente é contra. Tem aqueles que alegam motivos de segurança – o bebê pode engolir o brinco ou então ele pode engatar na roupa. Outros consideram um ato de crueldade, sem falar que assim se tira a chance de a criança decidir por ele mesma mais adiante.

Sim, a vida é feita de escolhas, mas muitas delas não me eram claras até recentemente, como a questão de se vacinar ou não uma criança ou então se a água deve ou não conter flúor. Bom, esses são assuntos pra outros posts.

Leia também: Escolhendo o nome do bebê

Crianças bilíngues

É claro que criar filhos no exterior tem uma série de desvantagens, mas hoje vou escrever sobre uma das principais vantagens: a exposição a línguas.

Adoro ver os pequenos falando mais de um idioma. É impressionante a facilidade que eles têm de adquirir o sotaque local, de trocar de uma língua pra outra com a maior naturalidade.

Tem uma série de estudos sobre os benefícios que isso traz ao cérebro, alguns dizem que até previne o mal de Alzheimer. Mas não quero entrar nesse mérito hoje.

Livros em inglês e português

Aqui em Londres, como vocês sabem, há muitos imigrantes e várias crianças têm pais, muitas vezes babás, de países diferentes. Lembro de ver um menino de uns três anos na pracinha falando japonês com a mãe, espanhol com o pai e inglês com os amigos, numa boa.

Nosso vizinho de quatro anos fala inglês e russo e, como outros bilíngues e poliglotas, é super aberto a outras línguas. Ele usa algumas palavras que os amiguinhos romenos ensinaram a ele e às vezes repete o que eu falo em português.

Por outro lado, já vi pais frustrados com o fato de o filho se recusar a falar a língua do país de origem da família. Também já conheci gente que adotou o inglês como idioma único.

A Inglaterra aceita o multiculturalismo e a orientação que o governo dá aos pais é que preservem sua língua materna. Nós falamos português em casa e usamos inglês na presença de pessoas que não entendem a língua.

Não queremos criar um geniozinho, mas procuramos expor a Sofia ao máximo à essa diversidade. Uma amiga nossa conversa em espanhol com ela e já vi pessoas de outras culturas se dirigindo à Sofia na língua deles. O engraçado é que ela presta atenção.

Se tá funcionando? Acho que é cedo pra tirar conclusões já que a Sofia tem pouco mais de dois anos. O que posso dizer é que ela fala as duas línguas e parece já ter entendido bem quando usar cada uma delas.

Acho que proporcionar à criança o contato com outras línguas não é privilégio de quem mora no exterior. Sempre dá pra criar oportunidades. Assistir a um desenho animado ou clipe de música infantil de outro país na internet, por exemplo, pode ser bem divertido.